13 March 2026

Ajuda Humanitária?

13 de Março 2026, Benguela

É sempre difícil para mim vir a países onde ainda há um grande número de pessoas que não são cuidadas… aqueles(as) que não têm o que comer, pois tudo passou a ser trocado por dinheiro… e a natureza, ou é privada ou já foi estragada... aqueles que não têm família sem ser a da rua onde é grande a competição por segurança... aqueles que não são reconhecidos pelo Estado por só darem despesas... mas de quem é a responsabilidade afinal? Quem deve acabar com a pobreza?

Como descendente de uma nação imperial (ainda que desconheça na minha linhagem quem defendesse as atrocidades da nossa nacionalidade), sempre senti alguma responsabilidade de corrigir erros passados ou de, pelo menos, pedir perdão a todos os que foram escravizados e colonizados… tantas culturas que foram destruídas e esquecidas, contaminadas por cosmologias impostas, tornando-se elas mais fiéis que o próprio inquisitor, seguindo doutrinas e teologias que já há muito foram reformadas sem serem actualizadas nos povos evangelizados…

Face a tais injustiças humanas, a minha tendência natural é tentar encontrar soluções… por vezes por compaixão, outras vezes por culpa como já referi…

Nesta manhã, chegou-me uma diferente perspectiva, talvez uma revelação, para lidar com este tipo de questão…

Nunca me senti muito confortável com as formas de ajuda humanitária existentes, e não quero com isso ofender ninguém…

Eu própria já servi e tentei ajudar diferentes pessoas e populações por esses meios - as chamadas ONG s, organizações não governamentais.

Quando vim a Angola pela primeira vez com essa intenção, em 1998, não me atraíram as ONG s que aqui estavam. Durante a guerra civil era mais perigoso, respeito, mas a distância entre os que vinham ajudar e os que precisavam ajuda era abismal… As ONG s estabeleciam grandes “aldeias” muradas e com guardas armados, para proteger as casas confortáveis, com água e comida em abundância, com geradores industriais, e quando saíam das suas muralhas, usavam carros novos e enormes, com AC sempre ligado e um chauffeur à disposição para que nem seja necessário estar estacionado… é claro que nem todas as ONG s são assim, e graças a Deus encontrei uma que era bem mais humilde, viviam sem muros e com orçamento bem limitado, viviam de pequenos donativos e voluntariado…

A maioria dos “obreiros”, como se chamavam aos que serviam voluntariamente para ajudar o resto do povo, eram Angolanos Bantos, uns Umbundos, alguns Kimbundos, e também alguns Brasileiros…

Bem, continuando com a minha linha de pensamento, o desconforto com a forma de serviço da maioria das ONGs em Angola sempre me trouxe questões (pode ser o mesmo noutros países mas vou usar o exemplo que conheço).




Como ajudar da melhor forma?

vai depender de cada circunstância, a começar por identificar o/as responsáveis pela situação em que as vítimas se encontram…

Europeus e Americanos do norte muitas vezes querem ajudar por se sentirem culpados e muitas vezes são mesmo responsáveis, nem que sejam os seus antepassados.

Como portuguesa também sempre senti isso em Angola… olhando as consequências que o colonialismo trouxe a estas gentes e estas terras, não há como não me sentir culpada… não há como não pedir perdão, e ainda não é tempo de deixar de o fazer, mas as vítimas de hoje já deveriam ter deixado de o ser…

A Independência de Angola e o abandono do governo português deu-se em 1975 (um ano e 10 dias depois do meu nascimento em território do Reino Chokwe), a meu ver num processo muito mal feito e sem qualquer planeamento ou qualquer pensamento e preocupação com a população que aqui habitava, tanto Angolanos Bantos de todas as tribos como Portugueses que aqui já estavam estabelecidos há algumas gerações.

Iniciou-se imediatamente uma guerra civil, alimentada pelos Estados Unidos da América e a Rússia, entre outros oportunistas, para continuarem a extrair o que o Império Português antes controlava : petróleo, diamantes, ouro, cobre e sei lá mais o quê que está na raiz desta Terra, debaixo de morros e vales, em rios e no oceano, em terra fértil para alimentar não só toda a população, mas até para exportar…

muitos sempre tiveram de olho nela, e parece que não tem como acabar a roubalheira desenfreada…

A guerra civil chegou ao fim em 2002 e a mama passou para outros, nacionais e gananciosos, comandados pelo mesmo diabo que tinha enfeitiçado os imperialistas do passado…

Já lá vão 24 anos da chamada “paz”... e grande parte do povo continua esfomeado, não educado nem treinado, desalojado, sem roupa ou calçado, sem família ou aconchego, sem medicina ou assistência, nem a tanta sabedoria tradicional perdida no passado…

OK, o colono imperialista distanciou o povo da terra, das medicinas tradicionais e da sabedoria ancestral, mas o que está a ser feito agora para resgatar tudo isso?

Vê-se alguma coisa, mas a ilusão da religião estatal e capitalista já está enraizada…

Tem que se ter documento para ser ensinado, tem que se ter família para ser cuidado, e onde fica o desalojado?

para onde vai todo o potencial que poderia ser aproveitado em cada menino e menina de rua?

o que custa ensinar? O que custa dar abrigo e alimento? Tanto dinheiro desperdiçado nesta Terra e não há dinheiro para cuidar dos seus?




estou quase a chegar onde quero chegar…




a responsabilidade de hoje não é mais do ex-colono, ou de cada um de pele branca que escolhe esta terra para viver…

a responsabilidade de hoje está nas mãos da povoação, dos que vivem em melhor condição, e não são esmolas a solução…

não é só do governo, que nem quer saber, nem do estrangeiro, que pode ter mais meios…

a responsabilidade é de todos os que vivem ao lado, o chamado de Cristo é para ajudar o vizinho e o pobre coitado…

as igrejas seriam as primeiras a iniciarem acções, tanto pragmáticas, ao suprir as necessidades básicas, como as mais políticas, escrevendo ao Governo e fazendo manifestações, criando sistemas e exigindo fundos para isso, se fosse preciso…

Também não depender de fundos, que só criam dependências, mas criar sistemas resilientes e sustentáveis apoiados e desenvolvidos pela população local…

não é isso que Deus pede? Que cuidemos dos pobres e necessitados? Tantas igrejas cristãs por esta terra fora e que ponte estão a fazer entre os pobres e necessitados e aqueles que têm poder? Quer legislativo, administrativo, económico e governamental… ou será que a fé é só para o domingo ou quando se recebe a visita de um Papa, ou quando se vai para o hospital?

eu vejo muitos “problemas” (na minha perspectiva como Europeia) e vejo muitas soluções e ideias para ajudar, mas não caberá a mim ou a nenhuma ONG estrangeira implementar… cabe à comunidade local, o pensar, planear e agir, pois são problemas que afetam a todos… quando há uma grande diferença de estilo de vida entre pobres e ricos, vai haver mais violência, mais dependências destruidoras e outras más consequências… por isso todos ganham se houver mais partilha e igualdade… vindo de um país com mais acesso económico, é óbvio que tenho muito para partilhar, mas eu estou de passagem e quem vive com os “problemas” diariamente são os locais…




esta questão do “ajudar” poderia ser mais como um(a) irmã(o) mais velho(a) ajudar um(a) mais novo(a).

prefiro ver assim, do que ver países “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos” - nunca gostei desta classificação, muito menos do 3º mundo e 1º mundo… Mas que raio de perspectivas.




a questão económica é óbvia, e por isso se fizeram mercados abertos, para que os ricos com acesso a transporte Internacional pudessem fabricar coisas num país para vender noutros e acrescentar significativamente o lucro…

mas todos os povos são civilizados e desenvolvidos, cada um à sua maneira e ao seu ritmo.

Eu, como Europeia do Mediterrâneo, ou seja, Latina, aprendo com os erros dos Europeus do norte ou da América do norte para ter ideia do que chegará eventualmente a Portugal…

pode demorar uns anos, por vezes meio século, mas os mesmos problemas e desafios acabam por chegar…

A Coca-Cola e o McDonald´s são bons indicativos de certo “desenvolvimento” num país, assim como a imigração de trabalhadores com baixos rendimentos, a xenofobia, o racismo e o crescimento de movimentos de estrema direita…

Os “irmãos mais novos” podem aprender muito com os “irmãos mais velhos” e até evitar os seus erros e melhorar as soluções…

Outro exemplo noutra área é o uso de “roundup” (glifosato), o uso de sementes geneticamente modificadas (parece que mudaram o nome para ver se disfarçam), o uso de fertilizantes e herbicidas químicos, etc… quando estas coisas passam a ser proibidas em certos países, por serem consideradas más práticas, nocivos para a saúde e até mortais, os vendedores vão escoar o Stock para países como Angola, onde a informação real ainda vai demorar um tempo a chegar… entretanto, fazem lucro.

assim, uma boa forma do “irmão mais velho” ajudar, é alertar, informar e educar, para que não seja o capitalista a ganhar…



é arriscado, aqui em Angola, pois pode haver boicote e até perseguição, mas esta é a melhor forma de ajudar, na minha opinião: informar os locais, para serem estes a fazer de forma diferente e encontrar melhores soluções para as suas comunidades

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