05 April 2026

Entrada de Jesús em Jerusalém

 Como muitas das accões, parábolas e ensinamentos de Jesus, também a entrada em Jerusalém na Páscoa, chamada hoje de “domingo de ramos” entre cristãos, está carregada de significado político.

A maior parte das pessoas hoje acha que o cristianismo é mais uma religião entre muitas e que a mensagem de Jesus é apenas espiritual, mas deixam de lado a parte política a que deveríamos dar mais atenção, na minha opinião.


A entrada de Jesus em Jerusalém na altura da Páscoa dos Judeus é uma dessas acções.

Foi na verdade uma forma bem sábia, como era habitual em Jesus, de confrontar tanto os líderes religiosos judeus e os seus professores da Lei, assim como os líderes políticos que na altura faziam parte do Império mais temido em toda a história, os Romanos.


Para os Judeus, este dia era o início das celebrações do festival mais importante. A Páscoa era cheia de símbolos que lembravam o povo judeu da libertação da escravidão no Egipto  providenciada por Deus através de Moisés, e o início de uma identidade cultural, os judeus, e a adoração e o reconhecimento do seu Deus, Jehová, pelos povos vizinhos. 

O Deus de Justiça, de esperança e de paz para todos os que são oprimidos por impérios tiranos… um Deus diferente dos que eram adorados na altura, um Deus que fala pessoalmente com os humanos, sem necessidade de intermediários, e não precisa de imagens nem Templos para que seja adorado. 

Como sabemos, entre o tempo de Moisés e de Jesus (e de Jesus até aos nossos dias), muito foi sendo distorcido e alterado baseado em relatos e interpretações humanas de textos ditos sagrados.


Jesus entra em Jerusalém de uma forma que trouxe esperança ao povo que já vivia sob a opressão do império Romano. Não sabemos se foi um protesto organizado ou espontâneo, mas o que é certo é que grande parte da população de Jerusalém aderiu à paródia sem mesmo se importar com o que os soldados e autoridades Romanas poderiam pensar..

Eram os conquistadores romanos que faziam as procissões de triunfo mostrando o poder dos seus exércitos, das suas armas e batalhões e montando os seus cavalos de guerra imponentes que deixavam o povo cheio de  medo com a intimidação.

Jesus resolve montar um burrinho, seguido de simples e modestos homens e mulheres da Galileia, pescadores, agricultores, artesãos e donas de casa, e fazer uma ridícula imitação para mostrar que não são precisos grandes exércitos ou poderosas armas para mostrar o verdadeiro poder do mesmo Deus que libertou o povo da escravidão no Egipto… 

A população compreendeu logo a sátira e juntou-se ao teatro… trouxeram folhas de palmeira que era também um símbolo de realeza e de riqueza, pois eram palmeiras que os escravos usavam para que os seus senhores tivessem sombra e ar fresco ao serem abanadas sobre as suas cabeças… Neste caso os ramos não foram usados para fazer sombra ou ar fresco, mas para serem pisados por este homem montado num burro, como se fosse um rei, como sinal de adoração e submissão… Alguns interrogavam-se quem seria esse louco sentado num burro, e diziam que era um profeta de Nazaré na Galileia… a Galileia na altura era a região dos pobres e iletrados, maioritáriamente composta de aldeias agrárias e piscatórias.


As pessoas em Jerusalém entusiasmaram-se pois a Páscoa era a altura em que o povo rezava por libertação,ou salvação do regime opressor que os dominava, assim como tinha sido o Egipto e a Babilónia, e como era agora o Império Romano. Seria este o profeta esperado que iria livrá-los do Império tirano? Os profetas judeus faziam actos que a olhos humanos pareciam loucura, por isso, havia grandes possibilidades e esperança no coração de muitos.


Os judeus esperavam uma revolução política ou uma intervenção divina de poder para livrá-los da tirania Romana que não parecia ter fim, mas este profeta falava de um outro “reinado” e muitos já o intitulavam de “Senhor”, “Rei dos Judeus” ou “Filho de Deus”, títulos atribuídos na altura apenas ao Imperador Romano... 


Jesus falava de um reinado de verdadeira paz, de justiça, de amor e sem violência, em oposição à chamada “pax romana” que era mantida pela tirania e constante vigilância de soldados armados. Chamava-lhe “Evangelium” que quer dizer “boa nova”, também com uma conotação política, em oposição à “boa nova” dos Romanos que era um anúncio de vitória declarada pelos romanos a cada nova povoação conquistada.


Jesus não opunha apenas o império Romano, pois os líderes religiosos também mantinham o povo oprimido e longe de Deus, usando as escrituras sagradas para julgar e exigir dos fiéis o que Deus nunca exigiu, através de teologias que só serviam os que abusavam desse poder religioso. 

Então, logo após a entrada satírica em Jerusalém, as coisas tornaram-se mais sérias quando Jesus se dirige ao Templo Sagrado, que para ele representava a casa de Deus, a quem chamava de Pai, uma casa de oração para todos os povos… judeus e não-judeus, ricos e pobres, homens e mulheres, adultos e crianças…


Jesus chega ao Templo e o que encontra? Um mercado… comércio por todo o lado… uns a trocar dinheiro, pois o Templo tinha a sua própria moeda e era ali que os visitantes de todo o lado vinham para dar as suas ofertas e sacrifícios como mandavam os líderes religiosos… É importante realçar que estas práticas não eram exigidas por Deus, e Jesus fez questão várias vezes de lembrar o profeta Isaías que disse que “Deus não exige sacrifícios, mas misericórdia”... Por isso também havia imensas bancas com todo o tipo de animais, supostamente exigidos por Deus para serem sacrificados para redenção de pecados. Eram estas crenças que Jesus não parava de confrontar nas suas mensagens, mas o povo não queria ouvir. Preferiam seguir os supostos ensinamentos de Moisés e continuar as suas inúteis práticas religiosas, do que ouvir a Deus, que apenas queria um relacionamento pessoal com cada um , oferecendo a Sua imensa misericórdia a quem dela precisasse, sem ser preciso sacrifício algum, nem mesmo um Templo.


Jesus não se conteve e aqui está o único acto que poderá ser considerado “violento” da parte de Jesus. Na minha opinião, um acto humano, como Jesus também o era. Assim como Jesus também chorou no funeral do seu amigo Lázaro, também acredito que, como qualquer ser humano, também tinha emoções para expressar os seus sentimentos, sendo um deles a ira face a injustiças, ou face a ignorâncias como esta que ele presenciava. 

Se lermos bem, Jesus não usou de violência contra ninguém. Jesus virou as mesas dos que trocavam dinheiro, os bancos dos que tinham animais presos em gaiolas, soltando a todos e  libertando também os animais de todas as injustiças humanas com a ajuda de cordas como se fossem chicotes. Estavam ali também pessoas com várias doenças, cegos e paraplégicos, e Jesus curou-os a todos num instante, dizendo que não eram necessários todos estes sacrifícios,muito menos dinheiro para pagar por eles.

Em vez de ter criado admiração e louvor, aquilo enfureceu ainda mais os líderes religiosos e os professores da Lei judaica, pois Jesus confrontou diretamente a falsa autoridade que eles diziam ter diante do resto do povo, passando uma mensagem em que nem os sacrifícios, nem o Templo, nem nenhuma autoridade religiosa eram precisas para Deus atender aos pedidos do povo.


Não é de surpreender que ao fim desta semana Jesus tenha sido preso, torturado, injustamente julgado e acabando por morrer crucificado, não só a comando do Império, mas por todos aqueles que não queriam abdicar nem das suas tradições e do seu suposto poder e autoridade, mas também pelos que não queriam abdicar de toda a ilusão que este mundo oferece e que multidões aceitam sem sequer questionar.


Vivemos em tempos muito semelhantes… vários impérios se querem levantar, apoiando líderes tiranos que se gabam dos seus exércitos e armamentos poderosos… Tantas religiões se vendem ao capital e ao poder para dominarem os seus fiéis e arrecadarem riquezas sem ensinarem nem praticarem a igualdade de classes, de raças, de nacionalidades ou caminhos espirituais. Quantas comunidades espirituais se levantam contra as injustiças humanas e os poderes políticos hoje em dia?

  

Dá vontade de virar as mesas e os bancos e expulsar a todos os que fazem negócios com o que é sagrado… Dá vontade de ir para as ruas como foram milhares de Americanos neste sábado e gritar pelo fim das guerras e seus negócios multimilionários, pelo fim de racismos que não fazem sentido nenhum, pelo fim do uso e abuso de poder contra os que têm falta de papéis para serem considerados humanos, pelo fim do uso de armas, pelo fim de toda a violência, pelo fim de todas as injustiças e falta de igualdade, pelo fim do uso da religião e escrituras sagradas para oprimir, julgar e condenar o que nenhum Deus jamais comunicou.


Estou neste momento em Angola, entre povos que viveram sob a opressão e domínio do Império Português por quase 500 anos, seguido por uma guerra civil que mais não foi que uma luta pelo controlo dos imensos recursos naturais e não pelo bem do povo como achavam os militantes libertadores que deram as vidas por ideais que nunca foram seguidos por quem se encontrou no poder… Ainda hoje, e já desde o fim dessa guerra em Abril de 2002, Angola vive sob um governo tirano, disfarçado de “democrata”, onde não existem eleições que não sejam corrompidas, e onde o povo não pode sequer protestar sem correr o risco de sofrer retaliações gravíssimas, incluindo a morte.

Quantos mais “cristos” serão precisos para confrontar estes regimes, políticos e religiosos, e trazer o verdadeiro Reino de Deus a todas as terras em todas as nações?  E quem irá defender e estar ao lado desses “cristos” ?

Quantos mais ainda vivem cegos e nem conseguem ver as injustiças, o permanente “racismo” entre académicos e iletrados, ricos e pobres, senhores e serventes, urbanos e rurais, sedentários e nómadas?


Foi também o povo que implorou a Pilatos para crucificar Jesus, pois também muitos temiam a insegurança que poderia surgir se os romanos fossem incomodados e os líderes religiosos deixassem de fazer o trabalho que cada um deveria fazer. Muitos preferiram a “pax romana” garantida pelo exército em vez da verdadeira Paz de Deus que vai para além desta vida material. Muitos preferiram manter os líderes religiosos que lhes diziam o que fazer do que terem o “trabalho” de buscarem eles mesmos as instruções do próprio Deus que diziam seguir e adorar.  


E o que preferimos nós hoje? Não nos incomodar? Limitarmo-nos a cumprir os nossos deveres religiosos como mandam os nossos líderes? Não protestar, mesmo face a injustiças? Não dizer nada com medo das retaliações ameaçadas?  Deixar andar pois nada vai fazer mudar?

Que raio de cristãos temos hoje? Que raio de líderes religiosos temos hoje? 


O líder da Igreja católica em Israel foi impedido pela polícia Israelita de entrar na Igreja do santo sepulcro para celebrar a missa neste domingo de ramos, e nada é feito ou dito?… Assim como nada é feito face ao contínuo genocídio em Gaza e todas as guerras que afligem este mundo nos tempos em que vivemos.


Precisamos da sabedoria divina e mais acções como as de Jesus a entrar em Jerusalém numa paródia poderosa que abalou um Império como o de Roma e o virar das mesas que evidenciou a hipocrisia e falsidade dos líderes religiosos que afastam cada vez mais as pessoas do Deus Universal de Amor e Paz, em vez de mostrar o caminho de humildade e justiça do Deus que continuamos a crucificar e matar.


Meditemos nestes ensinamentos. Passemos tempo a ouvir, a contemplar, a questionar e a estudar os ensinamentos que nos chegam. Seja qual for a tradição, a religião, o mestre ou guru, o Deus ou Orixá, a montanha, o rio, a cachoeira ou o mar, vamos ouvir o que o Divino tem para falar. Vamos dar espaço ao silêncio para escutar.

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