S,14 Março 2026
Hoje fui ao espaço da Comunidade Rasta de Benguela e tive conversas interessantes que me fizeram pensar e escrever... Apercebi-me que vejo o mesmo "problema" que vejo noutras partes do mundo, e vejo a mesma solução... Vou tentar desconstruir este pensamento.
O grande problema que vejo é o sistema que é adotado pela grande maioria dos Estados-Nação de hoje em dia, que é dominado pelo capital e pelo poder de elites, principalmente em meios urbanos. É a ilusão que se vê em todo o lado, do abandono da terra e de uma vida simples, por uma vida urbana e complicada.
Estes sistemas, como já podemos ver ao longo dos anos, produzem injustiças, pobrezas, diferenças sociais e discriminações que levam à criminalidade de diversas expressões. O abandono das terras e da vida rural é muitas vezes forçada por várias razões, mas ainda há muitos que assim escolhem, em busca das ilusões prometidas pelos sistemas capitalistas.
Em cada país, também variam as consequências desses sistemas. Angola foi colonizada no final do século XVI e apenas se tornou independente em 1975, ou seja, foram 400 anos de escravidão e domínio do então Império Português.
A “Independência” do governo Português deu lugar a uma guerra colonial, instigada e apoiada maioritariamente pelos Estados Unidos da América e a Rússia, sendo um palco da guerra fria durante muitos anos. Esta guerra sangrenta e diabólica, como todas são, apenas chegou ao fim em 2002, a 4 de Fevereiro. Depois da guerra acabar, abriram-se os mercados a todos os oportunistas e instalou-se o capitalismo desenfreado. Este povo já sofre há muitas gerações. Primeiro foram considerados “selvagens” pelos ignorantes Europeus, sendo depois vendidos como mercadoria para as fazendas da América do sul que precisavam de mão-de-obra submissa... Foram separados das suas terras, das suas tribos, da sua cultura e das suas línguas. A meu ver, o tráfico transatlântico desses séculos foi dos maiores desastres humanitários que as elites da altura criaram... 400 anos disto... mais de 4 gerações... A guerra civil continuou a tirar as populações do interior, das lavras, para virem buscar refúgio nas cidades costeiras onde era prometida maior protecção...
Eu vivi 2 meses num desses “campos de refugiados”, que passados muitos anos se tornam bairros ou aldeias... Era perto de Luanda, no Cacuaco, em 1998, quando fazia o estágio de um treinamento missionário de 6 meses... Muitas pessoas nem sabiam de onde tinham vindo, só sabiam que tinham fugido da guerra e dos guerrilheiros, que matavam à catanada quem aparecia no caminho, roubavam os meninos para os ensinar a matar, violavam as mulheres e destruíam as aldeias para ninguém mais voltar... Mais uma geração a viver este trauma coletivo que até hoje não parece ser falado nem tratado.
Nesta aldeia de casinhas de adobe onde ficamos a morar nesses 2 meses, na praia do Cacuaco, todos faziam uma bebida alcoólica que era feita com papas de milho fermentadas, a "Kissângua", misturadas com ácido de baterias... sim, ácido de baterias, para ser mais forte, para tentar fazer esquecer as atrocidades e injustiças vividas.
A maioria das pessoas da aldeia era viciada em álcool.. muitos tinham problemas de fala ou problemas mentais... fiz amizade com uma jovem mulher que vivia na praia, com bastantes limitações mentais, grávida, provavelmente violada, deu à luz um menino num abrigo abandonado que encontrou, eu era a única visita, levava comida e água e fazia um pouco de companhia.
Uma história como tantas outras, entre milhões de pessoas que vivem hoje em Angola nos arredores de Luanda, desamparados e esquecidos, ignorados e acusados de tudo e mais alguma coisa...
Em todo o mundo, os pobres e os “criminosos” são o bode expiatório para todos os problemas sociais. São eles o reflexo do que não se quer ver... refletem as injustiças de uma sociedade que deixa de cuidar dos mais fracos, como se fossem eles os únicos culpados das suas miseráveis vidas e condições...
É este o retrato da humanidade que não queremos ver...
Há outro facto muito importante aqui em Angola, talvez o factor que mais frustração cria aos que vêm de fora : Estes ainda são, na grande maioria, povos caçadores colectores... ainda existem os nómadas bosquímanos, os khoisan, mas mesmo a maioria dos grupos étnicos, que são Bantos, ainda que estabelecidos em “Kimbos”, ou aldeias, vivem com uma mentalidade de “caçador colector”, mesmo sendo pastores, agricultores e artesãos.
Ora, para todos os que foram forçados a abandonar as suas terras ricas e abundantes, onde a vida era realmente fácil e simples de ser vivida, agora só têm “selvas” de betão e alcatrão e têm que "caçar" dinheiro para trocar por comida... Mas quando já têm o suficiente para comer hoje, trabalha-se amanhã... A vida é Hoje! O que muitos Europeus se esforçam para alcançar com exercícios espirituais, meditações e sacrifícios, é o natural para estes povos.
O passado também é uma sequência de eventos que leva ao presente, e se calhar é o que vale a muitos para seguir em frente sem ser afogado nas mágoas da sua existência passada. Não sei nas outras línguas Angolanas, mas em Umbundu não existe o tempo verbal passado... quando se conta uma história, conta--se um evento depois do outro... é interessante !
Angola tem mais de 40 línguas nacionais, havendo 12 grupos principais, sendo as mais faladas o Umbundu, o Kimbundo, o Kikongo, o Chokwé, Nganguela, Kwanyama, Fiote e Nhaneca, na maioria grupos Bantos de Reinos que existiam antes da chegada dos Portugueses e da definição do Estado-Nação pelos Europeus.
Esta é uma terra de uma riqueza cultural e natural incrível, perdida na extrema pobreza criada por muitas gerações de colonialismo e da escravidão transatlântica, de uma guerra civil e por maus governos cheios de corrupção e injustiças...
Mesmo assim, ainda há muita riqueza, não só cultural, mas também natural. A terra é fértil e abundante em recursos, e não falo de petróleo e diamantes que nada servem ao povo, falo do solo, do clima, das muitas frutas, dos diversos biomas, dos ecossistemas saudáveis e da água que ainda há em abundância na maioria do território. Tanta riqueza, mas, como vejo noutras partes do mundo, o povo já não vê.
Há um ensinamento de Jesus que gosto muito, quando falava sobre o contraste entre servir a Deus , ou servir ao Dinheiro... Aqueles que escolhem servir o Dinheiro, sejam ricos ou pobres, deixam de ver as riquezas naturais que Deus nos dá para providenciar todas as nossas necessidades básicas. Por isso Jesus começou a dizer "Olhem para os passarinhos...olhem para os lírios... olhem para as ervas do campo...", ou seja, olhem para a Natureza... A natureza tem o que é necessário e dá em abundância para que não tenhamos grandes preocupações, mas os sistemas humanos focam a escassez e em abundância só produzem ansiedade e stress... Jesus falava principalmente com os pobres e rejeitados pela sociedade, as vítimas dos sistemas opressores que deixam as pessoas em ciclos viciosos que parecem impossíveis de conseguir sair...
Jesus faz-nos olhar para a Natureza, faz-nos lembrar que fomos criados como qualquer outro animal ou planta, na Natureza... e depois diz " ponham em primeiro lugar o Reino de Deus e a justiça, e tudo vos será acrescentado"... Pôr em primeiro lugar o "Reino de Deus" é virar costas ao sistema Imperial capitalista e confiar na provisão de Deus na Natureza... Aqui está a simplicidade. A solução está na terra e no viver em comunidade, onde os mais fracos são cuidados.
Terra, água potável, ar e sol, mar para quem tem esse privilégio, é tudo o que é preciso a uma comunidade. A conexão com o Grande Espírito, o Pai do céu e a Mãe Terra (comoquer que seja que cada povo se relaciona com o que é Divino), deve estar em primeiro lugar e depois a Justiça para todos. A igualdade, o perdão e o amor é o que todos precisam. A Terra tudo nos dá. Abrigo, comida e medicina.
Estes sistemas capitalistas querem nos fazer escravos e dependentes. Parece que “dão” tudo, segurança para o presente e para o futuro, mas o preço é elevado demais. Há séculos atrás a escravidão era forçada, mas agora arranjam formas inteligentes de escravizar sem isso lhe chamar.
Que os povos abram os olhos para ver... como vivem os passarinhos, como são belas as flores e como tão depressa secam as ervas... que os povos acordem e confiem no Grande Espírito de onde viemos e para onde vamos, em vez de confiarem no sistema capitalista que aprisiona e oprime, que não cuida de ninguém, muito menos dos mais fracos... Que os povos saiam das cidades para onde foram encurralados, ou enfeitiçados, e voltem para as terras para que não fiquem ao abandono e ao dispor do capitalista ganancioso que só quer extrair e destruir para mais lucro fazer, sem se aperceber que também está a empobrecer...
Foi este o tema das conversas que tive com os Rastas de Benguela. Pareciam estar apenas a ver a realidade urbana e todas as dificuldades que se apresentam, principalmente a falta de dinheiro para fazer isto e aquilo. Mas quando me disseram que lhes tinham dado uma terra, ainda por cima com terra, eu comecei a encorajá-los a começarem a ir viver na terra, fora da cidade. Podem manter na mesma as oficinas de artesanato na cidade que continuaria a ser um bom meio de fazer algum dinheiro, mas com terra e trabalhando um pouco, podem ter vidas muito mais saudáveis e seguras e viver em comunidade com as suas famílias com a abundância que a terra dá. É esta a solução que vejo em todo o lado...
Acabo com uma canção de uma comunidade que vive na floresta Amazónica:
" Da floresta eu recebo forças para caminhar,
da floresta eu tenho tudo, tudo tudo Deus me dá.
É um primor a floresta, da maneira que é feita,
com amor se harmoniza e deixa a Terra satisfeita.
Devemos viver na Terra com toda a satisfação,
se queremos ter a vida cuidaremos da nossa Mãe"
P.S.- A maioria das fotografias são de 1998 quando fiz trabalho voluntário em Angola. A segunda e terceira foram-me oferecidas por uma amiga que visitou e trabalhou entre o povo Mukuando, na Omunda Yovambo. E tem um postal, também dos anos 90, de uma mulher Mukubal em Luanda, com um autocarro e o banco Nacional de Angola por trás.












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