28 April 2026

Cheias em Angola




Em resposta a um artigo sobre as cheias em Benguela de Tomás Alberto - Imparcial Press

"Mais do que responder a emergências, é necessário prevenir crises. Mais do que gerar impacto imediato, é essencial construir soluções duradouras", disse Tomás Alberto no seu artigo. Um país que é o segundo maior produtor de petróleo em África sendo que a exportação de petróleo bruto continua a gerar receitas significativas, com o terceiro trimestre de 2025 a registar cerca de 6,2 mil milhões de dólares.


Um país que também em 2024 se tornou o maior produtor de diamantes de África em valor, exportando cerca de 17 milhões de quilates de diamantes em 2025, gerando cerca de 1,6 mil milhões de dólares (1,3 mil milhões de euros).

Neste mesmo país, cerca de 40% da população (aproximadamente 20 milhões de pessoas, o dobro da população em Portugal) vive abaixo do nível de pobreza, vivendo com menos de 2€ por dia... mais de 50% da população vive com menos de 4€ por dia.

Isto quer dizer que mais de metade da população de todo o país, mais de 20 milhões de pessoas, vive sem acesso às necessidades básicas de um ser humano, como alimentação, água e medicina - Num país que exporta só em petróleo mais de 24 mil milhões de dólares Americanos a cada ano.

Estas cheias estão a ser desastrosas por má, ou falta de gestão de uma das maiores e mais importantes províncias da República de Angola - Benguela.

No mesmo país que visitei há muito pouco tempo ( mais uns dias e ficava em Benguela também), ainda falta a luz constantemente. A água também faltou e não há previsões de quando será reestabelecida. Não faltam estradas com buracos, indústrias paradas ou abandonadas, vários sistemas que não funcionam, e um povo extremamente pobre que vai aguentando a corrupção e a má gestão sem nada poder falar ou exigir.
A educação é uma piada, ou uma tristeza, depende do sentimento do dia.

Também não é descarado o protesto do povo. Não é, porque não pode, nem o povo está habituado, muito menos educado no que diz respeito aos seus direitos mais básicos. É em código e às escondidas que se reúnem grupos de movimentos cívicos, pois nunca se sabe quem vai ouvir. Neste país não há liberdade para protestar ou expressar opiniões que sejam contra qualquer liderança, e talvez nem haja mesmo liberdade para pensar.

O povo espera a mudança que poderá vir nos próximos governos, mas a esperança não é muita pelo que pude sentir nos corações. Senti medo em alguns, senti o encolher de ombros de outros que já nada de bom esperam e ainda pior foi sentir a desmotivação de quem já não se importa. Ouvi histórias também de quem viveu frustrado por ter lutado por uma liberdade que nunca foi dada ao povo, como foi prometido.

Enfim, um país muito novo que quer crescer rápido demais, sem esperar por todos para caminharem juntos, e com um pequeno grupo de famílias influentes que "comem tudo e não deixam nada". Um governo corrupto é trocado por outro ainda mais corrupto, e é o exemplo que dão para todos os que estiverem a liderar.

Já no dia de Páscoa em Benguela houveram cheias... nós tivemos água das chuvas que colhemos do telhado para nos lavar, para usar na casa de banho e lavar a loiça...E nós estávamos muito bem, pois tínhamos um gerador que conseguiu estar ligado o dia todo... Muitos não puderam passar as festividades com a família, pois a ligação entre Benguela e o Lobito ficou alagada... Também nesse dia infelizmente morreram algumas pessoas por causa das chuvas e havia pessoas desalojadas, ou impedidas de se deslocarem por causa dos caminhos cheios de água que corria como rios, trazendo lama e o constante lixo plástico que se acumula em todos os cantos nas cidades e na berma dos caminhos...

Neste país, os que se levantam para falar quando os governantes não estão a governar, vão presos ou são silenciados por quem não gosta de pensadores livres que apenas querem ver os direitos humanos cumpridos.
Por volta da Páscoa foi mais um grupo preso num restaurante por se reunirem para discutirem temas "revolucionários" demais.

Que estas notícias chamem a atenção à audiência internacional, e também ao Papa Leo que coincidentemente irá visitar Angola em breve. Não sei o que poderá fazer, mas pelo menos expor as injustiças, pois só não vê quem não quer ver.

Este povo já sofre há anos demais e merece a verdadeira paz e justiça que é devida a todos os seres humanos.
Merece uma liderança forte, honesta, leal e com sabedoria para usar todos os recursos naturais que têm para o bem de toda a população e para a sustentabilidade dos ecossistemas que tudo têm para providenciar a cada um o que precisa nesta geração e nas muitas que virão.

Força povo de Benguela, o governo são vocês todos juntos.

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