O que geralmente é ensinado, (quando é, já que estas celebrações cristãs não passam de meros cumprimentos sociais e familiares) é que a Páscoa celebra a morte e ressurreição de Cristo que assim garante a "vida eterna" aos que têm fé neste acto de Jesus preparado por Deus.
Outros ainda conhecem um pouco mais do significado e acrescentam que seria a substituição do sacrifício judeus "exigido" por Moisés, lembrando a libertação do Egipto, quando o espírito da Morte passou por cima (passover- Páscoa) de cada casa dos judeus que obedeceram às instruções de pintar a porta com sangue de um cordeiro sem defeito. Assim a morte não levaria o primogénito daquela casa como fez em todas as outras casas egípcias.
É uma história macabra, e provavelmente simbólica pois não há relatos no Egipto de tais factos, e os egípcios não iriam deixar passar uma história destas.
Que Deus seria este digno de ser adorado se isto fosse verdade? Um Deus que exige a morte de uns para libertar outros? Um Deus que mata crianças? Um Deus que deseja a morte do próprio filho segundo acreditam os cristãos? Mas que raio de Deus é esse? Eu diria antes, mas que raio de interpretações são estas atribuídas a Deus?
Jesus desafia todas estas tradições.
Como já referi no artigo passado sobre a entrada de Jesus em Jerusalém, ele entra no Templo e fica irado, de tal forma que manda as mesas ao chão, liberta os animais e expulsa aqueles que trocam dinheiro para que os fiéis cumpram os seus sacrifícios exigidos pelas autoridades judaicas.
Jesus já tinha referido noutras ocasiões que "Deus deseja misericórdia e não sacrifícios", parafraseando o profeta Isaías, mas as pessoas preferiam obedecer a tradições do que a questionar o que isso quereria dizer.
Também numa das mensagens aos seus seguidores, antes de entrar em Jerusalém, Jesus diz que a vida eterna é conhecer a Deus, não referindo nada sobre a teologia da substituição, como é chamada a crença de muitos cristãos que dizem que "Jesus é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo."
Jesus é o cordeiro de Deus, na medida em que, em toda a vida nunca usou de violência ou maldade para derrotar o mal, e por isso lhe foi dada a maior autoridade nas regiões celestiais.
Jesus tirou sim o poder de condenação dado às nossas falhas ( ou pecados se preferirem), principalmente pelos líderes religiosos que usavam isso para controlar e dominar o povo, que precisava obedecer às exigências desses líderes para serem aceitos por Deus.
A ira de Jesus no Templo foi precisamente direcionada aos líderes religiosos, pois para Deus nunca foram precisos sacrifícios alguns. Como Jesus demonstrou tantas vezes, Deus está sempre pronto a perdoar e a apagar todo o passado que não mais nos serve, mesmo dos "piores pecadores" como chamavam os religiosos da altura.
Então, como é que os cristãos vêm a morte de Jesus como sacrifício para remissão de pecados e até para "irmos para o céu" e termos a vida eterna? ( Lembro também que essa obsessão com o "ir para o céu ou para o inferno" é relativamente recente na história da igreja cristã)
Uns até acreditam que Deus exigiu esse sacrifício de Jesus pois, segundo estes, só o sangue puro pode livrar os seres humanos do pecado, da morte e do diabo. No entanto Jesus teve vários confrontos com os líderes religiosos quando ele curava os doentes e dizia que os pecados já estavam perdoados, quando expulsava demónios que atormentavam as pessoas mostrando claramente que o diabo não tinha tido o poder e quando ressuscitou Lázaro mostrando que nem mesmo a morte teria o poder que achavam ter. Tudo isto antes de Jesus morrer como suposto "sacrifício".
Pois... eu também não compreendo, e não consigo aceitar estas teologias que nos são passadas e que ninguém parece questionar.
Deus é Amor. Deus é misericórdia. Como pode ser que Deus "precisa de sangue" e sacrificios? Como é que Deus precisa até de religiões com sacerdotes?
Não era isso que diferenciava o Deus de Abraão de todos os outros Deuses da Mesopotâmia na altura?
Jesus diz antes da sua morte que a vida eterna é conhecer a Deus, não oferecer sacrifícios. (João 17:3)
Toda a mensagem de Jesus era precisamente contra a religião sacrificial dos líderes judeus que assim dominavam o povo, deixando-o dependente dos seus serviços religiosos desnecessários.
O livro dos actos dos apóstolos e as cartas de Paulo e de outros nunca referem nenhuma celebração da Páscoa se bem me recordo. Referem as celebrações semanais em que se reuniam em casas e partiam o pão e bebiam o vinho, lembrando a forma como Jesus morreu nas mãos do Império Romano e dos líderes religiosos. Mas nem mesmo isto era instituído como um acto religioso dirigido apenas por sacerdotes como foi instituído pelas igrejas até hoje.
Voltando á Páscoa e ao sacrifício de Jesus, seria mesmo necessário?
Será este Deus como tantos outros que precisa de ofertas e sangue para ser apaziguado?
Eu compreendo o ser usado o simbolismo do cordeiro e do sangue derramado para dizer que não são precisos mais sacrifícios para sempre, mas dizer que era esse o plano e propósito de Deus para Jesus é outra história.
Será que os humanos não querem ver que quem matou Jesus foram eles próprios? Os líderes religiosos, os líderes do Império e até o próprio povo que preferia os confortos e seguranças que tanto o Império como a religião ofereciam.
Jesus não tinha que morrer assim para nos "salvar"... "Salvos" são todos os que viram as costas ao Império, às Romas e às Babilónias... "Salvos" são os que não precisam líderes religiosos para lhes dizerem o que agrada a Deus...
E eis o que surpreendeu a todos.
Jesus ressuscitou.
Ora, se fosse um sacrifício isto não fazia sentido. Um sacrifício oferece-se para nunca mais ter de volta, certo?
Não será a ressurreição uma forma de Deus dizer 'Não' a todo e qualquer sacrifício?
A ressurreição trás outras mensagens... O diabo, que domina os humanos através do medo da morte e da condenação dos nossos pecados, é derrotado pelo "cordeiro de Deus", não o "sacrifício", mas o humilde, submisso e não violento cordeiro. Foi exactamente a não violência que deu autoridade a Jesus para derrotar o mal, o diabo e a morte... Esta é a única é verdadeira revolução que destrói todo o mal e trás a verdadeira Paz.
No evangelho de João 16:8-11, Jesus diz que Deus já julgou o que governa este mundo, o diabo. O julgamento de Deus nunca é dirigido às pessoas, mas aos espíritos malignos que as possam dominar.
Deus vem libertar e não condenar, Deus vem acabar com a dependência de líderes religiosos e de líderes políticos, e principalmente regimes imperialistas e dominadores...
Para mim, o momento mais poderoso da morte de Jesus foi o rasgar da cortina do "santo dos santos", onde o grande sacerdote entrava uma vez por ano (Yom Kippur) para estar na presença de Deus e pedir a remissão dos pecados de todo o povo.
O rasgar da cortina foi a forma de Deus dizer "Basta... a minha presença está disponível a todos os que me procurarem..."
Deus não precisa de sacerdotes, nem sacrifícios, nem templos para ser adorado, como Jesus disse claramente á mulher samaritana que encontrou no poço.
Nós somos o templo, nós somos os sacerdotes e sacerdotisas, o sacrifício oferecemos nós, de livre vontade, não para agradar a Deus, nem porque Deus exige ou precisa, mas por amarmos e sabermos que o caminho de Deus é o caminho do Amor, da misericórdia e da compaixão.
A mensagem de Cristo na Páscoa é o exemplo que deu, de não resistir a toda a violência e injustiça que sofria com nenhum tipo de violência. Quando Pedro cortou a orelha ao guarda, Jesus condenou esse acto e disse claramente que não era essa a forma de conseguir Justiça. Nunca foi e nunca será.
Eu sei que é mais fácil falar do que seguir estes ensinamentos, por isso Jesus deu o exemplo e não apenas ensinou.
"Many more will have to suffer,
Many more will have to die,
Don't ask me why" (Bob Marley)
A sabedoria de Deus vai muito além da nossa, e esta é a fé de quem se diz seguidor de Jesus... " Deus deseja misericórdia e não sacrifícios. "
Aqueles que fazem guerras para conseguir a "paz" ou a "justiça", não seguem o caminho de Deus, mas sim o caminho do homem que se afasta cada vez mais de Deus.
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