Hoje li um artigo do Padre João Torres (FB) que começava assim "Não basta ajudar — é preciso caminhar juntos", e na minha resposta pude processar um pouco do que foram as minhas observações ao visitar Angola neste último mês.
Gostei do artigo pois concordo que a ajuda não pode ser á distância, e nesta visita pensei nisso muitas vezes. A ajuda em Angola tem que vir dos Angolanos.
Acho que em muitos casos, as ajudas humanitárias internacionais, a menos que sejam de emergência, pioram a situação dos locais mais do que ajudam.
Aqui ficam as minhas reflexões que provavelmente não ajudarão ninguém directamente, mas pelo menos que nos façam pensar em soluções pragmáticas e criativas face a tantas injustiças que vivemos hoje como seres humanos... Soluções que não envolvam governos, políticas, leis, guerras e uso de violência, nem mesmo dinheiro ou o que seja que nos tentam impingir a toda a hora.
Estive recentemente em Angola a visitar a minha mãe e irmãos e é sempre difícil ir a países onde se vê tanta pobreza e ainda pior, tanta injustiça.
É tentador querer ajudar com tantas necessidades à volta e tantos braços estendidos a dizer que têm fome. ( É verdade que são muito menos as pessoas que pedem quando me lembro do tempo da guerra civil)
Como a minha pele é branca, ainda mais mãos se estendem. Eu, mesmo sem ser rica em Portugal, tenho muito em comparação com a maioria dos Angolanos. Nós esquecemos muitas vezes os muitos privilégios que temos, como ocidentais e como brancos. É um facto.
E porquê que o mundo ainda é assim?
O salário mínimo ali são 60€. Mais de 40,% da população vive com menos de 30€ mensais e os meninos e meninas que vivem na rua, órfãs ou abandonadas pelos pais ( e pelo país), se tiverem alguma comida por dia já ficam satisfeitos.
Obviamente vive-se com 60 e até com 30€ mensais pois nos "bairros", como chamam as áreas onde vive a população mais pobre, não se paga renda, não têm água canalizada e puxam luz ilegalmente para não pagar... Como disse, vive-se.
A maioria das pessoas vende coisas e coisinhas, compram na praça ou no produtor e passeiam quilômetros pelas ruas a anunciar o que têm. E assim fazem o seu salário. Pelo menos é mais digno do que viver da segurança social, acho eu.
Angola até podia ter a melhor segurança social do mundo. Um país que é dos maiores produtores mundiais de petróleo com receitas anuais que rondam os 17.000 milhões de Euros para uma população de 36 milhões ... Ou seja, podia ser um país de milionários, mas não é. São milionários os governantes, os generais e ex-combatentes que continuam a controlar os imensos recursos que esta terra tem .
A minha irmã e mãe que ali vivem há muitos anos tentam ajudar o quanto podem, mas nem os que estão perto conseguem ajudar e até se torna frustrante, pois há sempre entraves. Entraves políticos, burocráticos ou simplesmente de desinteresse por parte das instituições locais que deveriam estar ali sim, para ajudar o povo.
Aqueles que conseguem ver soluções, ou conseguem apontar os problemas, como a corrupção do topo das hierarquias, são perseguidos, alguns vão presos, como foi um grupo na passada páscoa que se reuniam num restaurante para discutir assuntos que as autoridades acharam indevido... outros ainda "desaparecem"... Sim, e não estou a exagerar. Angola vive numa ditadura extrema mas ninguém "pode" sequer reclamar.
A minha questão é : "onde está a voz da igreja"? ... Onde estão as vozes em cada país como as de João Baptista ou de Jesus que se levantaram para falar pelos que não têm voz e acusaram as autoridades quando estas eram corruptas? Ok, ambos foram mortos e poucos estão dispostos a isso , mas não é este o chamado da igreja cristã?
As ruas enchem-se de igrejas cristãs de todo o tipo e denominações. A presença católica é tão grande que o atual Papa vai fazer uma visita nestes dias. Nas minhas orações peço que estas realidades sejam visíveis e que não sejam escondidas, e que esta visita possa verdadeiramente ajudar os que ali vivem esta realidade dia a dia.
Talvez não haverá tempo para limparem as ruas de Benguela e encherem os muitos buracos na cidade que é a segunda maior do país, ainda hoje com faltas de água e luz, e falta de boa gestão, planeamento e manutenção como estão a demonstrar as actuais cheias onde muitos já morreram e perderam tudo o que tinham que já era pouco.
Enfim, eu continuo a pensar no que poderá ser feito para ajudar.
Este problema não é só em Angola, é no mundo inteiro, só que ali é mais acentuado e visível.
Chama-se capitalismo, corrupção e ganância por mais dinheiro e por mais poder. Ou seja, a dependência da maioria da população de sistemas corruptos dependentes de capital e de quem controla esse sistema.
Em algumas conversas que tive com aqueles que estão cientes da realidade, tentei encorajar, aos que podiam, que saíssem das cidades e que vivessem da terra nas províncias. Enquanto houver acesso a terra com sementes e água potável, e mãos para trabalhar, Deus providência tudo. Angola em especial tem muita terra fértil. (Que já começa a ser estragada com o uso de agro-quimicos sem necessidade nenhuma)
Se é possível viver assim em Portugal, off-grid, como eu e muitos, ainda mais fácil é num clima como o de Angola onde se instala uma agro-floresta em meia dúzia de anos en com pouca tecnologia se aproveitam as águas e os solos de forma mais sustentável.
Mas é um cenário que não atrai a muitos, infelizmente, dá trabalho e ganham-se calos, e viver em comunidade e partilha também não é fácil para a maioria.
Não atrai o abdicar dos "confortos" do "Egipto" ou da "Babilónia" ou de "Roma".
Sim, não eram muito diferentes as circunstâncias dos galileus na Palestina na altura do império Romano. Foi ali que Jesus viveu junto com o povo e lhes disse para viverem em comunidades, em irmandades, partilhando tudo uns com os outros e cada um fazendo o trabalho necessário para o sustento de todos.
Pouco se deve ouvir isto pregado nas igrejas, o radical estilo de vida que Jesus modelou. O maior número de igrejas estão nas cidades. Como urbanas estão dependentes de salários, rendas, pagar água e luz, etc... Por isso, estarão mais interessados a encorajar as pessoas a trabalhar por dinheiro para deixarem o dízimo do que se mudarem para o campo para plantar milho e feijão.
Eu ainda estive em Angola durante a guerra entre 1998 e 2000, servi vários anos numa organização cristã interdenominacional. Ainda fui a igrejas nos bairros onde, na altura das ofertas, as "mamãs" (termo geral para as mulheres) entram de cesto na cabeça com o que tiraram da horta, mas acho que hoje já é só dinheiro...
Na organização onde servi, eu e todos os outros voluntários como eu, pagavamos uma mensalidade que podia ser em dinheiro ou em sacos de fuba de milho, pois nem todos tinham acesso a dinheiro durante a guerra, e na verdade eram os sacos de fuba que nos alimentavam quando nem com dinheiro havia comida para comprar.
E pergunto-me, porque é que não há mais igrejas com quintas agrícolas, biológicas, a produzir comida, a construir casas de terra com telhados de palha que Deus na natureza nos dá com tanta abundância?
Não disse Jesus que não podemos servir a Deus e a Mamon ao mesmo tempo?
Obviamente usamos dinheiro como troca, mas não pode ser o dinheiro que nos comanda a vida ou diz se somos "ricos" ou "pobres".
Vejo a mesma solução em todo o lado:
Viver em irmandades, da terra, partilhando uns com os outros,suprindo as necessidades básicas de todos, e viver independentemente de governos humanos.
Buscar a direção de Deus a cada dia e ajudar os que são vizinhos .
Foi basicamente o que Jesus tentou ensinar não foi?
A maioria dos cristãos fica tão fixado com a vida depois da morte que deixaram de saber viver a vida como Jesus ensinou,
Caminhando juntos, sim.
Uns com os outros e com toda a criação.

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